Nomes pelos quais é designada a fenomenologia transcendental

a ciência da operatividade constitutiva oculta

Ciência apriorística que se mantenha no domínio da possibilidade pura (do puro representável, fantasível) e que, em vez de julgar acerca das efetividades do ser transcendental, julgue antes acerca das suas possibilidades apriorísticas e que, com isso, ao mesmo tempo prescreva a priori regras para a sua efetividade. Hua I. Med. 2, p. 66


Ao longo de todas as doações particulares da autoexperiência efetiva e possível, estende-se uma estrutura de experiência universal e apodítica do eu (por exemplo, a forma temporal imanente da corrente de vivências) acessível através de uma possível autoexperiência, que pode ser apreendida e, eventualmente, enriquecida ao infinito.


Expor isso efetivamente seria a magna tarefa de uma crítica da autoexperiência transcendental segundo as suas formas singulares, que se enlaçam umas nas outras.


Vemos de antemão que os trabalhos científicos devem decorrer em dois níveis, para os quais se nos oferece o título de conjunto de "Fenomenologia Transcendental".


S 1.3. Necessidade de se começar por excluir o problema do alcance do conhecimento transcendental.


"No primeiro nível, o colossal, como veremos já de seguida, domínio da autoexperiência transcendental deve ser percorrido e, para começar, na simples entrega ao decurso concordante da evidência que lhe é inerente, portanto, protelando as questões de uma ponderada crítica última, assente em princípios apodíticos, acerca do alcance da evidência. Procedemos, portanto, neste nível ainda não filosófico em sentido pleno, de modo semelhante ao do investigador natural, na sua entrega à evidência da experiência natural, pela qual, para ele, enquanto cientista da Natureza, permanecem em geral fora do seu tema questões relativas a uma crítica principial da experiência.


O segundo nível da investigação fenomenológica toca, então, precisamente a crítica da experiência transcendental e, a partir daí, do conhecimento transcendental em geral." 68 67


Uma ciência que estabelece a mais extrema contraposição com as ciências no sentido até aqui vigente, com as ciências objetivas.


Seguramente que ela começa, portanto, como uma egologia e como uma ciência que, como parece, nos condena a um solipsismo, se bem que transcendental.


Em contraposição a Descartes, entregamo-nos aprofundadamente à tarefa de abertura do campo ínÚnifo da experiência transcendental.


$ 16. Excurso. Começo necessário com o ego cogito, feito na reflexão "psicológica pura" como na transcendental.


O próprio ego concreto é o tema universal da descrição. Ou, para o dizer de um modo mais preciso, eu, o fenomenólogo que medita, atribuo-me a tarefa universal do desvendamento de mim mesmo enquanto eu transcendental na minha plena concreção, por conseguinte, com todos os correlatos intencionais aí incluídos. Como já foi focado, o paralelo deste autodesvendamento transcendental de mim mesmo será o autodesvendamento psicológico, a saber, o do meu ser anímico puro na minha vida anímica, a qual, sendo apercebida de modo naturalístico, existe enquanto componente da minha realidade psicofísica (animal) e, assim, enquanto componente do mundo que vale naturalmente para mim.


$ 20 O tipo peculiar da análise intencional


A operatividade peculiar da análise intencional é, por todo lado, o desvendamento das potencialidades implícitas nas atualidades de consciência, desvendamento com que se realiza, sob o aspecto noemático, a explicitação, <84> o folhear distintivo e, eventualmente, a ação do que é visado segundo a consciência, do sentido objetivo. A análise intencional é conduzida pelo reconhecimento fundamental de que todo e qualquer objeto, enquanto consciência, é certamente, num sentido lato, ato de visar o seu objeto respectivo, mas que este objeto, em cada momento, é mais (está visado com um "mais") do que aquilo que, no momento correspondente, nele se encontra enquanto objeto visado explícito.

A estrutura de horizonte de toda intencionalidade prescreve à análise e à descrição fenomenológicas uma metodologia de um tipo totalmente novo - uma metodologia que entra em ação por todo lado onde consciência e objeto, intenção e sentido, efetividade real e ideal, possibilidade, necessidade, aparência, verdade, mas também experiência, juízo, evidência etc. entram em cena enquanto títulos de problemas transcendentais (e, paralelamente, de problemas puramente psicológicos) e devem ser elaborados como autênticos problemas acerca da "origem" subjetiva. p. 86

O problema é que o reino dos fenómenos de consciência é o reino do fluxo heracliteano e é uma esperança vã pensar para a analise intencional um método de construçao de conceitos analogo ao que funciona como padrao nas ciências.

"Eis a razão por que subsiste legitimamente ainda a ideia de uma análise intencional: porque, no fluxo da síntese intencional, que cria a unidade em toda consciência e que constitui, noética e noematicamente, a unidade do sentido objetivo, impera uma tipicidade de essência, captável por conceitos rigorosos." 86

No parágrafo mencionado, Husserl aborda a relação entre a típica generalíssima (representada pelo esquema ego-cogito-cogitatum) e o objeto intencional como um "fio condutor transcendental". Aqui estão os pontos-chave explicados:


1. **Típica Generalíssima (ego-cogito-cogitatum):** Este é um esquema genérico que representa a estrutura fundamental da consciência. A típica generalíssima contém todas as formas particulares de experiência e está relacionada com as descrições gerais de intencionalidade e síntese.


2. **Objeto Intencional como Fio Condutor Transcendental:** Ao especificar e descrever a típica generalíssima, o objeto intencional desempenha um papel crucial como "fio condutor transcendental". Ele guia o descobrimento da multiplicidade de tipos de atos intencionais que, em uma síntese possível, trazem consigo o mesmo objeto visado. O objeto intencional serve como um ponto de referência para a identificação das diferentes maneiras pelas quais o sujeito pode conscientemente apreender esse objeto.


3. **Descobrimento da Multiplicidade de Tipos de Cogitações:** Através da análise do objeto intencional, Husserl sugere que é possível descobrir a diversidade de maneiras pelas quais a consciência pode se relacionar com esse objeto. Isso envolve retroceder da experiência direta do objeto para os modos de consciência correspondentes, bem como explorar os modos potenciais de consciência que estão incluídos como horizonte na experiência.


4. **Unidade de uma Vida de Consciência Possível:** Husserl destaca a importância de compreender a unidade subjacente de uma vida de consciência possível. Isso implica reconhecer que a multiplicidade de modos de apreensão do objeto intencional pode ser integrada em uma unidade mais ampla, considerando diferentes modos de consciência potenciais e suas variações.


Em resumo, Husserl está enfatizando como o objeto intencional, ao ser considerado como um "fio condutor transcendental", desempenha um papel essencial na compreensão da diversidade de modos pelos quais a consciência se relaciona com os objetos e na identificação da unidade subjacente à vida de consciência possível.

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